05 abril 2011


LUZ NUM CÉU DE DIAMANTES


quando as ruas das cidades dormitório se esvaziam, os velhos tomam conta das crianças pequeninas e contam-lhes, baixinho, uma história ainda secreta





dizes que em foz côa ao lado das pinturas que o tempo quase esqueceu um pastor escreveu um comboio. contas-me então essa história. como se fosse uma criança pequena
e sentada no teu colo
eu precisasse das tuas palavras para que o mundo
este onde agora mesmo caí
fizesse sentido.

dizes: a história mais indiscreta é a que os olhos
olham e narram. dura mais de três segundos
e pode germinar de uma só palavra. mas essa
sussurras
é secreta. não há nada no mundo mais importante que
assim aninhada entre os teus braços
saber que lá fora
entre os pregões da multidão
porque hoje é sábado
e o dia é de feira
e o chilreio dos pássaros
que vêm comer à tua casa
a vida se dá em episódios tão breves
como estações onde os comboios páram
para recolher mãos
olhos
beijos
e o corpo numa promessa de sul. pastor fosse
também eu te serviria mais de sete
sete anos. pastor fosse
também eu na transumância
e seria fácil
muito fácil deambular nas tuas colinas
desaguar nas pradarias
ou nessas terras quentes onde um vinho novo cresce
e dá em cálices vales profundos
o rubro sabor de teus lábios.

(beberemos desse vinho
como quem faz amor)

belo és
como uma paisagem
toda
recortando-se contra a eternidade.
sim
essa mesmo onde as palavras se escondem
em ocasos de silêncio
e também
laranjas vermelhos impossíveis.
assim
tão translúcidos como diamantes. e os meus
olhos percorrem o teu corpo como se quisesse decorá-lo. é
tão breve a eternidade. tão breve. dizes

olha
subitamente não oiço já o restolhar das árvores
o rumor laborioso das aves
dos frutos amadurecendo em qualquer boca ávida
lá fora
no mundo
onde antes a brisa se abria em folhas largas
e nelas se escrevia
esta história que para ti guardei. dizes. não

não é verdade querido. é apenas o verão
a humidez do verão
evolando-se em espirais de um calor
que trepa pelos ramos
e rebenta numa outra música. por vezes
o silêncio é tão estridente
como gestos e aqui
sob as tuas mãos
a minha pele parece ter ganho essa liquidez:

esse rumor do mundo
desagua agora em mim - ouves? -
palavras secretas
como círculos de água vão
nascendo no meu ventre
e
tu
lenta lentamente
entras em mim.
é importante que saibas que é por isso
que o mundo
lá fora
parece ter desvanecido. mas não.
está apenas à espera
que tu
acabes de contar-me esta história.

que eu penso: como pedra
como árvore ou água
como a asa impossível de ave
eu
existindo sob a viagem
mais longa da tua língua
aprendo:
não há nada mais para saber


apenas o teu nome. esse nome
esse apeadeiro
secreto
do tempo
dentro de mim. depois
até pode voltar a ser primavera. e me te darei
em frutos assim
todos contidos
numa única flor: bocatua
corpoteu
húmidacarnetua: essas flores
também elas de nomes breves.
belas. ilimitadamente floresfrutos.


somos todos tão velhos
quando sabemos
tudo o que importa saber.
e agora olho dessa janela indiscreta
nesse comboio que um qualquer pastor
sonhou
num qualquer dia
( pode ser ontem
hoje
agora mesmo)
num qualquer lugar
(pode ser esse que acontece sob as tuas mãos
quando caio nos teus dias
e deixo que me traces uma paisagem
ou um desejo de paisagem toda
com céu ilimitadamente azul)e digo:
conta-me uma história. para que o mundo
este mesmo onde ainda agora caí
faça sentido.




(chamam-me blimunda. mas o meu nome é marta.
e hoje eu sei. porque nasceu da tua boca. assim
lentamente como quem diz
de uma paisagem com céu
ilimitadamente céu ou de uma natureza
de coisas
que os olhos
dão
quando são janelas
de indiscretos segredos). vejo
tão claramente por dentro
desses segredos que também eu
sou velha
tão velha como os velhos são.




( pastor fosse
também eu te serviria
sete
sete vezes sete anos
para te escrever
desse comboio
todo com um céu
por cima. assim mesmo. céu.




vá, conta-me essa história. pode ser secreta.
dessas que se contam
baixinho
quando as ruas se esvaziam e as cidades
adormecem nos olhos de um pastor.








um começo com palavras do luís.








25 janeiro 2011

coisas amáveis



não é tanto uma dor que se instala
entre os dedos
da manhã fria
os gatos
esperando a alba, o pinheiro na dormente mansidão e eu
que entre as rugas da memória
vou nomeando criaturas
vivas
que me assistem nas razões
- há algo que procura
a água do meu corpo, faz
de conta nos côncavos quentes
e espreita nos meus olhos




09 setembro 2010







do livro do desejo e outros despojos




*1

paisagem queimada em busca
de renovada água
deformidade curvilínea
buscando outra de sustento
: assim é
a terra que trazemos agarrada aos ossos

braços de céu em ruínas
olhos que constroem casas
habitações breves de outros
abraços e mãos
que desenham no horizonte
a boca toda de palavras
sorvendo o ar e soprando
por sobre nós os poemas: por exemplo,
o amor incha homens nos ventres
desabitados das mulheres e
desata as raízes das árvores
em que o sono é flores que disfarçam o sabor acre do negrume
e ensopam de mel e ordem o caos do sangue
para ao fim da noite
as feridas abrirem em fruto
o coração da manhã


*2
narciso
parado em concêntrico deslumbramento
vai parindo de seus olhos
as águas em que um dia
um outro menino
olhando na paisagem industrial
os novos santos
nos novos altares
se baptizará


*3
por exemplo, agora
esta casa
e a ausência de gestos inúteis
que lhe definam e debruem as janelas

por exemplo, agora
esta casa e o pó não acumulado
sobre cada uma das folhas que
árvore ou pássaro
se encolhem entre uma lombada
e outra
e o dourado dos dias
o negrume das noites
e a solidão que rasga
o tronco absolutamente erecto
de uma palavra
ou sítio.

por exemplo, agora
e agora mesmo
a casa em demanda de memória
o lugar comum da ausência
o vazio nos olhos
o peito em qualquer balcão e
dormindo
no aconchego da puta
o poema sardinheira
todo mãos
todo olhos
todo boca de palavras onde
beirais são ninhos de meninos e
pássaros


*4
quando
sem saber de lei nem terra
nosso senhor emboloreceu
na cal branca do papel
o poeta
finalmente
adormeceu

o silêncio então dividiu
a terra do céu
e ao terceiro dia
o poema nasceu


*5
vou, por este leito de luz
e água
os olhos desabridos e a rebentação
toda no peito
: meus seios inventam duas margens-
-minhas mãos escorrem-te
rio a rio
na clarividência de um
poema

sou,
sem que um único baldio
me sustenha
a respiração forçada de uma
única
e soletrada
palavra


*6
haverá o dia, tu sabes, em que nada do que presumes ser poesia terá já o gosto certo. roídos os ossos da palavra sobrará uma única esboroada pedra e haverá o dia em que, tu sabes, pelas areias nesses desertos desabrocharão como manhãs, límpidas e frescas as orquídeas, as magnólias e os outros perfumes de ser belo. as águas calmas no verde serão apenas idílios e novos nomes ganharão o sabor de serem ditos e reditos como línguas equivocadas no céu de outra boca.
"mas nada disto, absolutamente nada disto, tem que ver com poesia": é mais assim como que o corpo feito de sucessivos despojos
metamórficas páginas
um necessário
e urgente
desejo.









seguindo de perto e celebrando "estranhas criaturas", deriva editores, 2010,de henrique manuel bento fialho (antologia do esquecimento )

24 junho 2010







excomunhão em pouquíssimas palavras






Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que crêem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez.
O breve tempo de uma demonstração.

(lídia jorge, o dia dos prodígios)





Há-de nascer na cor dos meus olhos
vou reconhecê-lo. evidentemente vou dizer-lhe palavras capazes de descrever a minha pressa. como se a minha urgência fosse telegráfica. ainda.

1. os telegramas estão fora de moda, baby, sms, sms, é o que está a dar. sempre recebes uma resposta na volta: enviada.
2. enviada
3. enviada
4. será que quero uma resposta. será?




mas então: sabes, hoje as gaivotas gritam sobre a casa, os bicos em esgares salgados invadem-me o sono e há um ar pesado cheirando a maresia. pega-se aos vidros pequenos da janela e cai-me sobre o edredon. estou a dormir. ainda. ou não. e a gata aninhou-se entre mim e a minha solidão. estou a dormir. ainda. ou já não.

despertei ao som de todos estes gritos. uma tontura. outra. e outra ainda. um mal de mar. um mal de mar que invade a boca e deixa um rasto de agonia. todas as ondas aqui me rebentam e vêm sós. cada uma é uma única vaga de palavras em que o meu corpo se quer dizer-te

vaga salgada.
vaga
e salgada.


eu sei. não deveria dizer da solidão. existes tu. e o amor. existe esta gata ruiva. e o amor. existe a minha desmultiplicação e o amor e existe essa memória de dias futuros.

ou não.


é que baby, hoje nasceu-me isto na cor dos meus olhos e reconheci-o. chamo-lhe o que é a que a vida pode ser.

e diz lá, o que é que a vida pode ser para além de ser esta coisa meio pesada por vezes com um cheiro pegajoso. de gritos. de mal de amar. de amar.

Preâmbulo: o roer das noites
Epílogo: o vaivém dos dias.


no entretanto vou escrevendo na pele da perna com a polpa dos dedos. palavras soltas.
eu sei
é uma mania que tenho desde pequena
esta a de escrever com a polpa dos dedos

(estranho os dedos terem polpa. aposto que têm sumo...
têm têm
são as carícias
ah, que lindo)

quando se soltam as palavras o corpo todo
parece ir atrás delas

por exemplo
se eu disser esgares e gritos
se eu disser sons roucos do mar ecoando no meio da noite
é porque
o meu corpo tem
medo

tenho medo do medo que tem caras feias e solta gritos e é rouco e cavo e escuro como no meio da noite. sombras

são só sombras

( andolitá cara de amendoá
um segredo coloredoquem está livre
livre está. ufa!)


ai, contemplo as sobras das minhas mãos: a esquerda, a direita, três ou quatro momentos a que chamo meus. cada um dos dedos, pico-pico, sarapico, quem te deu tamanho bico…

quando era pequena a avó beliscava-me os nós dos dedos em busca de saltos até à frança, cavalos a correr e meninas a aprender. depois o tempo esgotou-se. tudo ficou terrivelmente importante. tão importante que não haveria já mais lengalengas. nem meninas a aprender.

( qual será a mais bonita e onde se irá esconder? )

digo-te: ao despertar nasceu-me nos olhos esta coisa esquisita. e dela sobram-me as mãos. as palavras mãos
as palavras olhos, língua, boca. o sexo húmido de tanta coisa. tan-tan-ta

fluxo. refluxo.



e falamos todos ao mesmo tempo. e todos temos coisas importantes para dizer e todos temos coisas importantes para fazer. eu digo: nada do que tenho para dizer pode ser mais importante que isto: urgente refazer o corpo e reinventar uma história que sobreviva aos ossos róidos pelas noites e à carne que os dias vão mastigando – xiu, por detrás dos olhos é que sobrevivem as palavras importantes, tens de apertar muito muito os olhos e depois, vês, aparecem uma bolinhas de cor umas bolinhas de luz e isso são as palavras, são as palavras mais lindas – todos os dias.

dia após dia. um dia, os cavalos a correr, as meninas a aprender… pico, repico


por exemplo: *seria bom que ficasse bem claro o desentendimento.* seria bom entender que o desentendimento é a único início possível para todas as coisas importantes. e como se a cacafonia invadisse o espaço, inventar palavras lindas lindas e luminosas como bolas de sabão e ventinhos para as levar pelo ar. não.


é importante dizer, sabes,

tenho um espaço entre a carne e o sangue em que equivocada a minha alma vagueia

sabes,

tenho esta alma presa ao branco de qualquer muro
um pássaro de asa negra

escorrendo penas
escorrendo
escorrendo


o negro é a cor das minhas asas

o negro é a cor das minhas penas

o negro é beautiful
morrer sempre cedo
e viver fast como uma bolinha de sabão

não. quero uma bolinha de sbão as meninas a correr os cavalos ...

dar um salto
pode ser até ...

urgente a in-comunicação

re haver a in-capacidadade de dizer as palavras importantes. rolar os olhos para detrás do dia

deixar a língua tocar o céu
(deixa, deixa que seja o da tua)

e cair cair na perfeita perpendicular da palavra vida


ah, mas todos temos outras coisas importantes para dizer

por exemplo, deixa-me dizer-te


olha, dói-me o lado direito do peito numa espécie de dor difusa que se propaga até à boca. ao céu da minha boca. quero dizer, deixa-me assim meio sem ar. e agarro-me com força aos lençóis tentando encontrar um chão. e quando caio é de apneia em apneia
que ...

dá um salto até à frança, os cavalos a correr, as meninas a aprender…

1.um ansiolítico
2.urgente

combater a angústia e dormir num hipnótico abraço,

u k? não é um barbitúrico,

que raio de coisa, um hipnótico não é um barbitúrico

zol
zol piden hiphopnótico, ya

quando dormes assim é quase como morrer não é? é
e até nos sonhos
eu tenho o meu rosto

é como se o sono fosse uma morte com um rosto igual ao meu
ai,
e se for? u k?
se for o meu rosto?
parva...


merda, uma asa está presa nas franjas do sono, outra cai-me ao chão entre a gata ruiva e o tapete de cemporcentolã. cheira-me a maresia e

betty. betty boop é o seu nome
da gata. ruiva.

tonta, olha lá, não sentes que a gente cai do sono como quem cresce. ou, primeiro dormíamos e a história era sem começo

é. que o corpo dormente não pesa.

depois de repente o dia irrompe com
violência.
essa luz branca – o corpo recorda-se.

e o relógio biológico em que o corpo dá as horas:

dling-dlong: bom dia

cabeça, tronco e membros

divina trindade o corpo indivisível. vá, toca a acordar

e a alma,
é importante saber que a alma está presa nessa excomunhão branca.

a excomunhão branca



as gentes gramam dela

U k?

as gentes, as gentes gramam da alma
e da branca

sim, mas e da excomunhão?
isso ñ sei


porra, outra vez

o cio-ciar das gentes. passo a passo, fila a fila, gritam os silêncios importantes. e todos pensam e todos dizem e todos gritam tudo ao mesmo tempo. como as gaivotas que sobrevoam a minha sala. quem vos deu tamanho bico?

prontos, aqui me nasce o corpo. inevitavelmente. nem consigo reinventá-lo. nem tão pouco rescrever a sua história. eis-me.
eis-me.

e todavia… quase me sinto bem
assim
sem ter de …


era uma vez?

não. era uma vez sete vezes setenta vezes. o peso da eternidade. o peso todo. enquanto me dura esta vida, pesa-me a eternidade. essa coisa feita de coisas importantes para fazer e coisas importantes para dizer. essa coisa de um tudo nada tão pegajoso como a maresia. irrompe na sala. a gata ruiva mia. o sofá vermelho desagua sob os meus olhos. red velvet. engraçado.

1.há marcas nossas no sofá, sabias, marcas que revelam o peso dos nossos corpos. redondas marcas redondas brancas.
do peso todo. contra o peso da eternidade. eu. tu. o sofá vermelho.

2.Não quero dizer nada de verdadeiramente importante.
Evidente: não aprendi a dizer nada
De verdadeiramente
Importante


U k?
Enviada


( supõe * que o início não começa * e eu digo tenho uma alma de asas negras toda agasalhada de ossos em que cada um ocupa o lugar que na verdade não me pertence.

sou uma babel de nomes uma
babel de palavras uma babel de importantes palavras. evidentemente não aprendi. porra.

pico-pico, sarapico, quem te deu tamanho bico
subo-me montes desço em vales. a pique.
a memória. a minha avó morreu. talvez a minha memória seja esta coisa vida pegajosa. e o corpo guarde cheiros que se pegam às mãos. a minha avó morreu e levou com ela os cavalos a correr as meninas a aprender. e o corpo guarde lugares. guarde inícios. secretas danações do maravilhoso. hummmm, pérolas, pérolas nacaradas e
tão macias e cheirando a mar amar

como escapar à importância da eternidade. como. quebrar a longa cadeia que me faz escorrer nestes muros brancos imaculadamente brancos duas asas negras. ave. quero

supõe,
baby, que agora mesmo vens, abres-me o corpo e me acaricias nesse mesmo lugar onde a minha alma subitamente se desfaz em pó.

supõe que tudo o que é importante se resume a saber que não há verdadeiramente prodígios. e que não há realmente forma de escapar à danação. que tudo é tão simplesmente esta história que nem sequer tem início. um homem, uma mulher, o espaço do começo devassado entre eles. o equívoco homem. o equívoco mulher. a troca. ela ele - ele ela. supõe que esta é a história que vale a pena ver por detrás dos olhos
como pontinhos luminosos

supõe que sou eu a montar-te. eu que te abro as pernas e à escassez de bocas que o teu corpo revela entro em ti ainda assim. a boca boca, a boca anûs. de cada um dos meus dedos escorre-te um grito.
um que valha mesmo a pena gritar

e pico-pico, sarapico,



supõe que aí entre as tuas pernas, na boca inventada do teu corpo, me deposito. eu-pérola. a tua eterna branca danação. então



este é o início que não começa. todo o início de toda a história. o paradoxo contagia-nos de verdade.)


a maresia deita-se no sofá. agora afunda-se no red velvet. sangue aveludado. os gritos das gaivotas e um início.

porra, o dia não é de prodígios.










27 maio 2010

malmequer: bem te quero

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** Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever.
Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjunção de astros no infinito, deve vir nos livros.
Ou mais provavelmente esse tempo nunca pôde existir. Vou pensar melhor a ver se eu próprio entendo. Ponho-me a lembrar o que passou e o que me lembra é só a tua presença forte ao pé de mim. E depois acabou. Deves ter achado que era demais e então acabou. Foste para não sei onde e estás lá fixa quando te lembro...

..Mas agora não quero saber. Nem da tua morte em plano suavemente inclinado. Nem de quando, de quando quê? nem de nada. Não sei amar-te aí, é o caso. Porque só se pode amar na perfeição, depois o amor perde o nome e é outra coisa. Devias ter morrido quando te conheci para ser impossível morreres. Devias ser tudo então para não haver mais nada depois. Esgotares o teu possível para não haver mais possível. Mas houve, acabou-se. Os deuses, como sabes, amam os que morrem jovens porque o absoluto é a sua medida. É assim. Que erro, querida, sermos humanos e fraccionários.

** vergílio ferreira em nome da terra **






e diz lá porquê. diz. que é como quem pergunta
daqui até ao infinto em quanta luz se mede o teu amor. diz. vá lá diz. ohhhh :,,(

e diz lá porquê. diz. se eu houvesse em flor
que cheiro me cheiravas? diz.
se eu houvesse assim em lápis de cores todas arrumadinhas numa caixa caran d'ache
de que folhas m'imaginavas. vá lá diz...
e se o meu corpo fosse um meio de transporte qual o
andante que compravas. vá diz... e em pronúncia estranha
se soletrasses o meu nome
era rosa ou madalena maria
ou pucca girl
era eu ou era marta
era blimunda ou era eu
era eu ou era eu. se em cruzinhas me bordasses
que lençol me embrulharia. queres dizer-me. não. ohhhhh...

e se eu fosse um mapa
e de pontinhos me dissesses
que pontinho descolavas. e se na lua me pusesses em olhos
ou eu houvesse em água lá em marte
que shot tu davas. e em graus celsius ou de richter
o teu desejo de mim
se medisse em sismos
que risquinhos tu fazias. vá lá, olha que faço beicinho...

e se, olha desculpa, mas é que eu sou tão piegas tão piegas
e quero mesmo saber
se eu houvesse assim
em champô dois em um ou em pacotes da nestlé
que sabor tu compravas? se eu houvesse por aí
em ruas de cidade como lisboa
filas de icês dezanove
pilhas e pilhas de processos
reciclados no papelão
ou em
bares manhosos de putas e de sailors
tóquios jamaicas after hours
esgotos a céu aberto
governantes sem pasta na sombra
sombra de batinas a repique
falências e hospitais essepontoa
leucemias e blocos de esquerda sem ar condicionado
etiquetas de saldos e óculos raibane de caracasvelos
ilhas indonésias e tsunamis em estação alta
santas de ladeira a pregar às laranjinhas
ou então se viesse empacotada num contentor
cheia de ucranians por todo o lado
ou portas que chiam e emperram
e da madeira me soprasse com o fétido do jardim
diz lá e se eu por acaso, só por acaso, fosse frígida
e não soubesse
remendar um ovo estrelado
e tirasse com a gilette os pelos do buço
ou se me deitasse sempre
com o creme esparramado de pepino e algas
e comprasse no celeiro
aqueles bolinhos de arroz e te ditasse somos macrobióticos
ou então num suponhamos
que eu além de mamas caídas
tinha um anel no estomâgo pra acabar de vez
com a bulímica existência de table dinner
ou se pelo contrário não gostasse do kama sutra
e te dissesse assim isso é pecado mortal
e em abortos clandestinos dias e dias de salário período em atraso
escrevesse neste blogue sobre
meninos pios enrabados bandas desafinadas a reboque
de maestros de fraque
como channel fo(u)r disney em canal dezoito mimetizada

ou então
suprema realidade perguntativa
eu houvesse numa ratazana
que em primeiro roesse a carne
e depois te viesse nos ossos

diz-me diz-me ainda me amavas?

*é tão fácil o amor* em doses suaves de amaciador
é tão fácil o amor em pink lotions da lancôme
é tão fácil o amor em arrumos de ikea
é tão fácil o amor em coordenados do gato preto
é tão fácil o amor em visa electron
é tão fácil o amor desfolhado na fnac
é tão fácil o amor quando se tem um smart
é tão fácil o amor quando não há multas
por excesso de velocidade
é tão fácil o amor quando se formata uma pizza
é tão fácil o amor se preferires a marca branca
é tão fácil o amor enquanto o marco polo cantar
é tão fácil o amor em happy meals e roupas à medida
no avesso da zara e em colors da bennetton
é tão fácil o amor quando se diz eu amo-te
benzamo-nos com água pia
recitemos um credo natalino
e deitemo-nos com o mourão entre as pernas apertadas
a cartilha decorada
de uma vida tê dois em lusitanas brandas paixões

CORO ( vezes dois )
eu sei
eu sei


é tão fácil amor em dias e dias de sol
é tão fácil o amor uma cabana e um labrador
é. fácil. o amor. é?
é tão fácil o amor
é tão
fácil
o
a
m
m
o
r
pingar-nos chão como quando menstruo
e vem fora de horas
e não tenho um pensinho
daqueles que cabem na mão

e então eu pergunto-me bem me quer bem me quer
e pétala a pétala
percorro
os teus lábios
o teu corpo
poro a poro te chupo sorvo bebo
como mordo arranho
monto cavalgo disparo
entro saio e deslizo
venho vou e aperto
e expludo
a mil à hora o coração
na boca a bater
e o suor cola-me o meu ao teu ventre e depois
subimos um pelo outro como se sobe a escada
para dentro de um avião
e se parte de bilhete e malas
para esse paraíso de praias eternas
areias escaldantes é verão água cálida água límpida
está tudo deserto e somos só nós que silêncio que paz e ...
claque. o melhor dos reality shows és tu. eu uma survivor. uma brother
uma celebrity
em passeio pela tua fama recebo-te como óscar. and now
o espectáculo must go in

vens vindo vens vindo
em marés de sal e de sémen. e fico espantada
porque afinal eu sabia. eras tu. tu mesmo. mesmo que houvesses como eu.
ou em pensinhos da evax.


é tão fácil o amor. quando humanos (re)fraccionários
nos assinamos assim
forever young
forever absolutamente young. a quem os deuses amam. e a sorte protege.






12 março 2010








pegue-se num caco de vidro de contornos incertos e
dependure-se à beira de uma janela-
sim, pode ser a da sardinheira, sim-
para que a luz da manhã se desmanche em mais luz
e baile pela sala com as poeiras do dia
e outros e mais
cacos
breves e incertos

: a vida e eu sentada
aqui







25 abril 2009








acocorados

amodorrados

alienados

acobardados


desempregados



e o 25 de abril sempre existiu ?





16 janeiro 2009







apenas te amo com a vulgaridade dos dias
com esse silêncio velho dos aloés à beira do mar
nos senteiros daninhos de erva e de pedra
e de terra 
à vez seca
à vez húmida 
e os seus breves pirilampos e orvalhos

apenas te amo 
com a carne magoada de tantos sonhos anteriores
apenas te amo
vou escurecendo

: trago o chão todo que pisei agarrado a mim
os homens que amei e a ti
os filhos que pari e de ti
mãos brancas como manhãs jovens de
veludo e
o tempo todo 
no tempo todo
agarrado a mim

- apenas te amo com a vulgaridade dos dias

(rente ao corpo
no intervalo pouco de uma vida)

                              ...

inventa-me outro lugar, vá,
-um que seja- 
perpendicular ao nome das coisas
para devolver-me esse espanto redondo que é o amor

um lugar, sim,
curvo
fechado
lento
lentíssimo

como o rasto molhado do silêncio
lambendo os caminhos
os aloés
os dias e na terra
à vez seca
à vez seca
o chão que trago agarrado comigo



(demasiado quotidiano, dizes.
é.)







02 outubro 2008

21. dentição incompleta











*o amor é tudo – excepto o que deveria ser * luísa monteiro


comíamos nêsperas maduras sentados no muro
ensolarados de tanto abismo lá em baixo
de tanto sol lá em cima de tanta doçura de frutos e de tantos dentes de morder frutos e línguas de chupar sumo de frutos maduros e tu
: à noite sonho com peixes e abismos de mar e ventres de mulher e brancuras de beijos de mulher e filhos peixe de ventres líquidos de mulher
mas
sabes, a noite tem pernas curtas como a mentira
a morte
vem sempre primeiro como uma manta de papa e dedos ásperos
o tempo nunca chega e é sempre como o sumo
a escorrer
às vezes doce
às vezes só maduro
e sobra sempre tudo que é a morte.
a minha canta-me
dorme meu menino de oiro e até parece dois olhos grandes e umas mamas de leite branco
quente quente, mas não é, não é,
e, sabes,
nunca fiz um filho
nunca nunca
fiz um filho

e eu
: quando eu morrer quero ser cremada e soprada em cinza de ramo de nespereira maltratada. sabes
as nespereiras mais maltratadas
dão as nêsperas mais doces
e tu
:cuspo sempre caroços grandes grandes demais para a minha boca
e o céu da boca fica maltratado de tanta semente
assim
gorda
como palavras doces e inchadas à procura de nome

dizes
: nunca nunca fiz um filho
ainda assim
sonho com mamas grandes de um leite branco
e abismos que são ventres líquidos de mulher
e têm dentro peixes com olhos
exactamente iguais aos meus. estranho
o nome de uma mãe
desenha-se na minha boca quando chupo desse leite
branco
e nado nesse ventre líquido ao lado dos peixes
com olhos exactamente iguais aos meus. mãe? sim?
nada, não é nada.

eu
:sei que a
minha morte tem a minha cara e o nome que
não me dei e a minha própria boca cheia até ao céu de palavras
doces
inchadas de todos os nomes
excepto os que deveria ter
por exemplo
:amor.
que é quase tudo
excepto o que poderia ser.


primeiro:
está frio. e é noite. está tanto frio que me doem as letras nas articulações entre parte de
uma palavra e
outra.
frenéticas de dedos e pensamentos mancham a noite. a fingir de dia. o meu gato também finge
cloacas à noite
em equilíbrio sobre os muros de paredes estreitinhas
corre e não corre
e dá-se em fodas tão fingidas como estas palavras

(invento-me. e sobra-me sempre tudo)

para afugentar a pretidão da noite
a pretidão

o olho do cu do meu gato é um enorme vazadouro de pretidões e ele importa-se lá
foder
é para nós
que não somos gatos e temos cloacas ou olhos de cu
e medo da morte.
neste janeiro em março
oiço-lhe um longo miado.
enrabada na noite
a morte que dele espreita sai com passinhos leves
não faz um filho
não
não precisa.
a herança de um gato é sempre a própria morte
simples
branca de leite e quente quente. pequenina.
a minha
não. a minha morte é enorme como dois olhos vazadouros de palavras sem nome. e peixes com bocas cheias de palavras tão sem nome como as minhas. por exemplo
: o tempo do tempo todo
escorre-me dos dedos
como as nêsperas em sumo nos escorrem
sentados
ensolarados e
cheios de abismos com mães por dentro

mãe?
sim?
nada, não é nada

segundo:
o mar. ecoa contra as arribas desta terra
aqui
e dá-se em orgasmos de sal que se colam às janelas da nossa casa corredor. contemplo
esse som colado ao vidro e sei que é por causa do sal
suor cuspo lágrimas tudo
de tudo
que o vento é maresia
: sinto o meu ventre como maré de mar
que vai e
vem. em ondas de tempo salgado e luas e sóis e ainda outras e mais luas e
outros e mais
sóis. o meu sexo incha e dá-se
em águas salgadas
e em palavras que me escorrem pelos dedos como filhos
peixes maduros
de olhos exactamente iguais aos meus

mas
nunca nunca fiz uma palavra que fosse um filho teu maduro
ainda
de doce e nome por dizer

e do amor sobra-me sempre tudo – excepto o que deveria escrever

por exemplo: tenho todo o tempo para te dar
e

se escrevo é para inventar esse abismo em que
as águas da minha morte se separam.
por cima um céu de boca a escorrer sumo
por baixo um imenso olho em que a terra se abre
como um ventre líquido de mulher
com mães por dentro
e
a morte é apenas mais uma parideira
da minha noite noite e da minha noite dia


caminho por cima das águas e os dedos
gritos prolongados de gaivotas
são apenas asas curvas e ponteagudas que furam a própria pretidão

mãe?
sim?
nada, não é nada

terceiro:
sabes que usa uma espécie de cola que mantem os dentes falsos na boca
para quando falar mentir
com todos os dentes que tem no céu
da boca?

a dentição incompleta e por cada falsa
verdade um pensamento é arrancado à terra límbica que são os céus todos líquidos de uma mulher por dentro. acorda, vá, o veludo listrado de esperma vermelho
do sofá
grita em mãos e em bocas: que será que acontece ao tempo todo ao tempo
de tudo
quando já não temos dentes de morder e deixar que o sumo escorra
pelos cantos da boca cloaca mundo todo? é assim

a minha boca como o tempo todo esvazia-se e fica só um céu por cima e águas que já não se separam
e onde o branco branco
quente
é o teu e me escorre em não palavras em não nomes
e o tudo que é
excepto o que deveria ser


anda
vamos lagartear ao sol e deixar é cair uma parte de nós
essa que é tudo o que deveria exactamente ser
como cometa lagartixa e
rir
que a cauda de uma lagartixa cresce ainda que arrancada
quem me dera que o amor fosse assim, digo
pois, dizes,
um tempo esperma vermelho
de mãos e bocas
caudas cometas de lagartixa e miados
de gritar e foder a morte


quarto:
meu homem, diz lá
se te comer do pão com a boca toda e te beber
três vezes do vinho
com a boca de dentes toda
achas que vou direita ao céu da boca do teu amor?
sei lá,
depois de sonhares abismos as águas entram pelos olhos
e desatam-se em palavras sem nome
e nunca mais o amor é assim uma espuma como a do mar
leve
leve
tão leve que em tempos certos até pode voar

achas que o amor que é tudo
e mais essa palavra sem nome
pode voar-me por dentro?
não, o amor é tudo excepto essas asas nos pés. tem pés de chumbo e
puxa-te para uma pretidão tão preta que nem a ti
própria reconheces. não se dá em nomes
não conhece o teu rosto. anda por lá
meio às cegas e de vez
em quando
desata-se na tua língua
desfaz-se na tua pele como outrora a espuma de mar
e
tu cais lá dentro e é como um ventre fecundo
sempre a parir dias sempre a parir noites e
depois nunca mais caminhas a não ser agarrado a esse chão
voas, se calhar voas, mas é rente, sempre rente
à cova que os teus pés marcam
porque é assim como morrer
só que antes do tempo
antes do tempo todo do tempo

olha, uma cauda de lagartixa a caminhar sozinha.
é.


último:
estou só
com o meu gato de cloaca fingida estou só
e está frio e doem-me as articulações entre um pensamento
e uma palavra sem nome. doem-me as carnes em que os pensamentos à procura de nome
se dão em palavras e dói-me o meu sexo
inchado de tanto pensamento.

a avó dizia: veste a cinta, menina, aperta as carnes
e eu:
as minhas carnes crescem no exacto ponto em que a minha cona ainda ratinha de pelo penugem
deixa ver as entranhas do meu tempo
as minhas carnes é uma nêspera ensolarada e abismada
de sumo a escorrer pelos cantos da boca céu
e a sobrar em filhos de palavras sem nome
e filhos de homem
que não é o meu


chego-me ao meu homem de cheiro a meu homem e quase
sinto o cheiro do meu futuro tempo. mordo-lhe na boca um nome
para esta palavra sem nome.
o seu sangue tinge-me a noite e
separa os abismos do tempo. o meu ventre
líquido de todas as mulheres
dá-se em espuma
sim
leve
leve com sapatinhos de cristal que até podem fazer voar
e eu
digo vem
faz-me o amor em letras de carne
e dá-me
um nome porque


está frio. frio de orvalho que pinga não pinga nos beirais da nossa casa corredor e penso que tenho para aí oito anos e de pernas nuas e saia rodada sinto um lagarto descer pela roda ó i ó ai e não sou a carolina
mas estou do lado de cá do muro de parede estreitinha e os meus irmãos a gritarem
anda lá ó cagarolas ovo podre

oito infinito
par de olhos que espreitam a minha ratinha de pelo penugem e um fiozinho de sangue que é todo o tempo que havia nesse tempo
e não menstruo
sou uma menina que não corre e está em frente a um muro de parede estreitinha e alta
muito alta

gotas de minúsculo sangue caem nos abismos da cloaca terra e
o futuro é o meu sexo amadurecido como uma nêspera maltratada
(são sementes pequeninas, meu senhor, são sementes)
e com a boca cheia cuspo dias e cuspo noites
sementes de pretidão tão preta e tão pesada como cobertores de papa

o meu sexo não tem nome. mas poderia até ser gato.
ou ter o teu. de homem com cheiro a meu homem

deste outro lado do muro imagino até que posso ter oito anos e corro pelo muro em equilíbrio atrás dos meus irmãos
anda lá cagarolas o último a chegar é um ovo podre
e as pernas nuas e não uma saia mas um lagarto a comer
me
o sangue e não menstruo é apenas um joelho esfolado
ou uma ferida de tempo no tempo
ou um futuro de filhos a escorrerem
entre as pernas e

Mãe?
Sim?
Nada, não é nada

o meu homem cheira a meu homem e dorme ao meu lado
nesta pretidão da noite com roncos brancos de mar
e sangue e sal e cuspo e esperma de onda
de onda
do meu ventre abismo saem peixes de olhos
exactamente iguais ao dele
só que os dele estão escondidos atrás do sono
e nada, não é nada
apenas o tempo a roer
me
por dentro dos teus olhos que não vejo
das tuas mãos que estão enconchadas entre as tuas mamas
pequeninas
fingidas como mamas de mulher
mãe
o meu homem que imagino ser a minha mãe
e dar-me a beber o leite quente das suas mamas fingidas e colo
de mulher.
mas não. o sono dorme-o.

e eu
: não tens útero para tanto filho,
não tens.

e caminhas com os sapatos de chumbo
do amor

essa palavra sem nome
escreve-se torto pelas linhas a direito do
meu corpo

acorda
:quando eu morrer quero-me cinza no tronco
de uma nespereira
a mais maltratada e doce nespereira
depois
come dos frutos e cospe-me
em caroços
não sementes
não sementes
ao sol
ao sol


e anda lá, vem
amar-me ainda assim
ainda que na maior pretidão
a boca cheia até ao céu
dos abismos de peixes olhos
com o tempo a espreitar por entre a morte
e essa noite de muro de parede alta e estreitinha
:do lado de cá é o amor que é quase tudo-excepto o que deveria ser
:do lado de cá são os meus quinze anos
e menstruo
:do lado de cá o tempo todo que havia de haver nesse tempo todo e

finalmente
não parir-te um filho
antes
apertar-te entre as carnes do meu próprio nome

dizes
:perfilhar-te

que é tudo o que deveria ser. o amor.

08 junho 2008

desmemória descritiva em sete andamentos

(para o jorge)



1
ambicionar
o poder vegetal
de respirar
o que não precisas

:do tubérculo inchado
ser-te o cálice que permanece
e te bebe o orvalho
e o tempo
e o tempo

(da nomenclatura: vero,
de verdadeiro)


2
ser da arte
uma via para a extinção


3
dizer das coisas o formato:
único
nos pontos finais
invisível apenas
o nome
saber de cor
a morada
gastar as horas como quem as desconhece
trazer o corpo
num lugar estranho
à própria vida
e ainda assim
persistir

.nem começo
:nem fim

no ventre arredondado
da palavra
amor
as cambiantes nostalgias do som

o infinito.

o infinito e mais dois


4
existir na intermitência
das nossas mortes
:perfilhar-te
e dar-te beijos
que alimentem
-me


5
invejo quem fala
e é ouvido


6
negar um cristo de chumbo
a partir-me os ossos de cada vez
que abocanho o dia
os braços erguidos
os crivos no olhar
abba
abba
e a cada palavra sangrar um minuto
meu
:estar só
absolutamente
tão só
três vezes tão só


7
deitar-me na tua noite
humm gastar do húmido bafo
a tua palavra
eu
ser da medida entre o teu olhar
e a tua mão
o nome
o próprio e mensurável nome
do teu sangue

:sim
e essa ambígua morada para lá do corpo

25 abril 2008

eu lembro-me

19 março 2008

dos dias anteriores




















estas palavras viajam sem âncoras´
crescendo a despropósito
entre o céu da boca e a boca do corpo
digo
:estes são os dias do meu amado
o seu tempo desflora-me espesso como o ar
que a manhã lambeu na terra


no ventre terroso do seu corpo
onde por assim ser
começa o seu nome corpóreo
uma árvore de mil frutos
se intromete entre a língua e as mãos

:digo mil frutos e a minha boca não nega
o seu sabor de mel
- que ventos e chuva nos lavem da face da terra
e ainda assim o meu amado se erguerá
e com ele o seu e o meu tempo-

e nos seus olhos
nessas fronteiras de vidro onde
tantas
tantas vezes
espreito a eternidade
duas asas me esperam e me hão-de elevar
pelos céus

o meu amado viaja comigo e eu com ele
entre este e outro tempo e
entre este e outro tempo eu e o meu amado
permanecemos


(para ti, primavera em mim)

marc chagall, les amoureaux

01 março 2008

ao amante in(di)visível

“nem todo o corpo é carne”*,não
ó subtil incandescência dos olhos
rasto da luz coada por entre os dedos
palavra
-nome que se segrega como suores
minúscula e húmida de cor
soprada ao de leve pelos lábios

não é carne
os recessos sinuosos da memória
os lugares de mim onde a língua
percorrendo-te ávida
sobra nos lugares de ti. carne não é
o desfolho do teu tempo
nos quentes concâvos do meu
ou os dias que aí repousam
acantonados entre uma morte
e outra por vir


suspeito que mesmo a flor
tremenda
do meu ventre
rebentando agora cálida à tua beira
não é essa carne viva e pulsante como astro
mas uma qualquer outra história
de invisíveis
e indivisíveis enredos
mãos bocas fios e abismos com peixes dentro
onde marés e olhos
desvendam no mar os rios e
os ardores do sol
sabem
inevitavelmente
ao luar que aí morre

: não carne,
não











*david mourão ferreira

27 fevereiro 2008

cartas para o exílio

dir-se-ia que a noite vem e me traz com ela
até ti
até às horas em que se me despertam estas palavras

escrevo-te sentada no silêncio profundo desta aldeia.
por vezes ponho-me à escuta e quase sinto o mar
rugente e frio
lá ao fundo. penso
que farás
:dormes, certamente,
mão com mão, embalado num sonho,
oxalá lindo, lindo

assim quereria.


são tão altas as paredes da noite
tão habitadas pela estranheza de existirmos. tanta é a insónia
que me visita para me deixar este travo de amargor
esta suspeição de que para lá de todo o mundo
existe qualquer outra coisa
de que nem sei a cor
nem o sabor

(tento recuperar o meu corpo
a morna quietude do meu corpo
e acontece-me despertar
sempre e cada vez mais)



- há qualquer coisa de antigo neste estar aqui
a esta hora despropositada e perdida
a tentar alinhavar uma carta-


(o tempo que nos engole os dias e
o tempo que nos regurgita em solidão à luz do sol)

dias a dias a roda incessante das horas nos rouba
o sonho feliz. provavelmente
é um certo vazio que se instala entre os ossos e
a cor do olhar. perco-me tantas vezes quando
vigio o outro lado do mundo
perante o imenso das águas
de que quase sinto o rugido
aqui
sentada no silêncio da aldeia e digo
:então a vida é isto?

a gente entrega assim
tantas vezes

demasiadas vezes

um corpo
a outro
corpo

na esperança que ele o devolva roído de
ossos e tristezas e no
final
os dias são a hora exacta dos olhos no momento em que uma dor
qualquer
maior que a hora toda
se interpõe entre
mim
e
ti

(carregamos todos demasiados segredos
dores inconfessáveis e antigas
carreiros sinuosos por onde as lágrimas calam
e secam)

sei: há esse quotidiano de mãos
que se afundam na distância
e beijos por dar
sempre por dar
:há essa fronteira de vidro
inquebrantável fronteira de vidro e casas de onde semeamos estas palavras
como segredos
(:quanto
que de nós resta
depois da morte sussurrada
depois da morte
da doce morte
que assoma em cor
ao teu rosto
em água à tua boca
e se faz e desfaz
entre pernas e lençóis e vida
- uma pequena morte que reclamamos como nossa
um pedaço de ressurreição
possivelmente uma terra de renovadas boas-novas

-sei)



a verdade é que uma andorinha nunca basta
para toda a primavera
e como poderíamos então
crescermo-nos como outras terras
um no outro?

(temo ter-te já dito demasiado)

o que na verdade acontece é tangível apenas
no pensamento


sobra sempre um olhar
que vigia o frio rugido em que os dias
como o mar
se estendem para lá
sempre para lá
sempre
para lá



(tenho-te comigo
nesta hora
pequena)

15 janeiro 2008



































quem nos parte deixa para trás um rasto de coisas por nomear. dizemos

este é o rio em que te miravas a tarde alongando-se para lá da ponte e o chápe-chápe das ondinhas suaves criando um caminho por onde os pássaros desciam e vinham beber o entardecer e o silêncio. quem nos parte deixa para trás todas as outras coisas do mundo por nomear. dizemos

aqui pensámos nos dar as mãos e os abraços

aqui nos falámos das pequenas tristezas e olha aquela é a cor exacta dos teus olhos. quem nos parte habita depois os lugares

longe longe

em que a memória concebe outras histórias e os nomes se instalam em nós

devagarzinho e muito devagarinho nos enxugamos de tanta água













(foto do jorge, extensamadrugada.blogspot.com) (para ti, claro)

14 dezembro 2007

décimo primeiro mandamento (aditamento de natal)

não cobiçarás o crédito alheio

20 outubro 2007






tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor


















amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso e construo-me esta madrugada letra a letra. das palavras que para ti guardo não sei mesmo se qualquer uma delas faz sentido. não importa. há sempre qualquer outra coisa que espreita para nos levar.
rói nas entranhas um fogo assim tão silente. não saber já dizer. não encontrar a palavra mais justa para dizer - e nos olhos
que baixo
na tua presença
há já outra outra cor. outra cor da minha dor.
não é a morte mais silente
que o dia sem ti
nem a noite imponente deslumbre maior
que o céu que dorme nos teus braços
nem o mar véu mais puro
que a tua pele nua



desculpa, mas tenho de te contar. hoje morreu a lúcia. a velha viúva da aldeia (e eu pensei em mim, pensei em ti, assim nesta distância que nunca acaba, nesta morte em vida) quando amanheceu, o corpo e o seu lugar ainda quente cheio das suas mãos, do seu cheiro de mulher velha, dos olhos que alongava sentada na cadeirinha à beira da janela, quando amanheceu, digo, vieram de lá de trás da serra os sobrinhos. trouxeram muitas outra mãos: vestiram-na, deitaram-na no caixão, o terço de latão e perolazinhas fingidas em duas voltas em redor das mãos cruzadas, os sapatos só calçados nas pontinhas dos pés, não cabem, são sapatos de há muitos anos. o cabelos com aquela mise-en-plis que sempre lhe conheci. os caracolinhos muitos fininhos dos rolos, a laca a cheirar a dias de festa. parecia uma menina.
depois, levaram-na para a capela da vila. e quando voltaram, já depois de enterrada, entraram-lhe em casa, com pressa, a sobrinha a perguntar, onde é o contentor do lixo mais perto, e toda tarde foi um vaivém de carregos.

um fartão de coisas boas no lixo, dizem aquelas
outras velhas sentadas no muro à beira da estrada.

meio encolhidas. meio encolhidas já de saudade. a saudade
pode
ser uma velhice encarquilhada.
o tempo quase arrependido. pode.


depois, foram embora. sobra um papel colado na janelita da lúcia, vende-se, em letras mal desenhadas.
mais à frente, toda a sua vida despejada na rua.os olhos
de toda a gente a desvelarem
os segredos. a mobília espanhola, negra com florinhas. comprada em badajoz. como é linda
meu amor, como é linda. as gavetas dos anos

cheias desses bilhetinhos
que com a letra toda inclinada para o lado do coração
escrevia: uma só

pergunta:
então o amor é isto? os pratinhos de vidro colorido
em borbotões nas beiras
escaqueirados num caleidoscópio de dias.
os dias de festa
os dias de luto. quando morreu a mãe
quando o tempo apagou os natais
quando as páscoas viram
os seus dias encurtarem e lhe levaram
o tempo de homem. sentada à janela
como quem espera: ha pasado un caballero
- quién sabe por qué pasó!-
y se ha llevado la plaza
con su torre y su balcón,
con su balcón y su dama,
su dama y su blanca flor: os versos decorados
e inscritos num bilhetinho,
como são lindos, meu amor, como são
lindos.
agora já não. manchados com a gordura
de fritos
o lixo dos outros a manchar o antonio
machado. o lixo dos dias
a manchar o seu homem
a sua torre
a sua branca flor. a roupa de enxoval
ainda por estrear,

devassada na boca dos cães, a baba
dos cães como sangue de parto,
a baba dos cães como suor de corpos que ali não
se deitaram. as rendas
os intermináveis biquinhos de renda
para arrematar as toalhas. os retalhos.

a vida toda em retalhos coloridos. uns tão escuros
outra os gritos coloridos
do amor em pé, espreitando quando
ela lavava os cabelos. nunca cortes
esse cabelo, lúcia, nunca,
a arca de pés
e cantos em latão amarelo. as roupas de casa. a casa
toda em roupas. a casa toda em roupas
macias
cheirando a alfazema e maçãs verdes.

este é o cheiro para a nossa filha, diz a lúcia,
mas a filha não vem. nem ela nem ninguém.

o psiché meio manco:
o rapaz dos correios de nelas

no sépia desbotado da moldura
do fotógrafo de cidade
- há tantos tantos demasiados anos -
o vestido domingueiro e o serviço de copos
comprado às prestações ao vendedor de enciclopédias

esvoaçam os lençóis da noite em que se deitaram juntos
o bordado no cabeção: amizade
um - a - todo intrincado de florinhas
e folhas. a primavera do amor
na primavera do corpo.

um homem de uma mulher pode ocupar toda a casa
sem nunca o saber. em todas as coisas que uma casa
pode ter
uma mulher pode refazer a cada dia
o seu homem
e deitá-lo
sentá-lo
aninhá-lo entre as sertãs e os pratos da loiça de viana
entre as linhas de coser e
as cortininhas de chita que o tempo
embolorece. há um homem
a dormir nesta cama
muito depois de o homem
partir.

senhores, nem a roupa quiseram, dizem as velhas sentadas
encolhidas

encolhidas. as palavras cheias de rugas
os olhos aguados. cataratas do tempo
desaguando em espanto. senhores,
nem a roupa do corpo quiseram guardar.

baixo os olhos. quando a minha morte vier
que venha escandalosa
repentina
e me roube a memória dessa frase
toda inclinada
para o lado do coração: então o amor
é isto?

não quero saber nem mais uma palavra.
nem mais uma.

que é feito do rapaz dos correios em nelas
dos beijos de olhos

dos sorrisos de mãos
e do amor escorrendo pelas pernas: quando passou
os pirinéus
o amor era essa palavra
roubada nas escadas
do prédio
o ventre espantado
um calor crescente e a água da boca.
a mãe dormia e embalava nos braços
uma menina. ainda ela
ainda ele
e um amor todo inclinado para o lado do coração. é sempre daqui que nascemos
para o mundo
sempre os olhos abertos inúteis
quase cegos

e é sempre aqui que nos morremos
com os sons a deslizarem lentamente da boca
uma casa aos pés guardando toda a existência
o amor que se fez
o amor que nos viajou por dentro do corpo.

é sempre assim que nos morremos:
olhos
abertos
quase inúteis: cegos somos já
a todo o mundo. quando vier a minha morte
quero-me assim
muda olhos vazados
escondendo entre os ossos esse mistério
do lado coração e
todos os momentos em que me viajei por dentro. e de ti.

o silêncio todo do mundo
entre as mãos
cruzadas no peito
um terço de perolazinhas de fingir
o latão da nossa senhora de fátima
os sapatos na pontinha dos pés
e uma roupa por estrear: assim quero também eu
receber a minha morte: menina
de olhos cegos
e a pureza de um coração
inclinado no corpo
para o lado em que o mundo
não venha acordar-me.: então
o amor
é isto?


(talvez muito de ti viva em mim
assim nesta clausura em que me
defino quando fecho os olhos e
um cheiro a mofo me inebria

chiu...)


o amor morte
branca
de perolazinhas fingidas
latão de nossa senhora
a sossegar duas mãos cruzadas
no lado mais inclinado.




título do capinador de palavras, chico buarque, o al berto sempre em flor, as palavras de lilazes e a foto do jorge

19 outubro 2007

obladi oblada

obsession




isto não está tudo seguro e nunca se sabe quando nos vão mandar parar, a solidão é o pior, um homem fala com as árvores, o outro ou está a dormir, ou a comer, ou a assobiar, está um gajo sempre sem dizer nada, e eu que gosto tanto de ouvir canto gregoriano no silêncio dos claustros, música celestial claro...

dizias. e ias debicando um vermelho de maçã enquanto as palavras escorriam
silenciosas
dos teus olhos. dente
a dente te percebia a lonjura.
o silêncio de claustros invadidos pela multidão de vozes. o céu todo já não se abre
em azuis. e branco.

tão branca a eternidade. tão insuportavelmente branca. como uma faca afiada entre
as costelas. não. aí no lugar mesmo
em que o sexo floresce e tenta resgatar o corpo ao tempo. esse
bicho esfaimado. nunca
saberei que mais querias dizer. a tua carne dissolveu-se por entre páginas e páginas
e os olhos
foram com ela. sobrou-me esta memória de harpa
este gosto de ti
assim por debaixo da língua. e uma maçã oxidada. escura carne de quem já esqueceu dentes. saliva. ou de como a língua
explora a doçura.

se ainda aqui quisesses regressar poderia até incendiar esta manhã
e deitar-me contigo ao sol. uma redonda e rubra maçã no meu ventre. encantaria a noite
e poderia até dizer-te
anda cá, não te dissolvas no sal dos teus olhos.
nos fertilizaremos em corpos de mar
e nos vagaremos dessas lágrimas. não há água mais doce
que as de nossas bocas. bebo-te
dos olhos. transmuto-te em rio. para que me desças. me desças
entre um seio e outro.

aqui estou ainda. espero por ti. não temas. é que estas páginas
e páginas que me sobraram entre os lábios
ciciam ainda estes versos
estas águas livres e insubmissas com que te fazes saliva em mim
ácida saliva de maçã. vermelha saliva. um gosto
mesmo
a sangue. sangue.

dai-me uma jovem mulher
com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue.
com ela encantarei a noite.
dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento.
mulher quase incriada, mas com a gravidade de dois seios,
com o peso lúbrico e triste da boca.
seus ombros beijarei. cantar? longamente cantar,
uma mulher com quem beber e morrer

dizias
depois um de nós pairando assim triste
sobre uma cidade cheia de ruídos e pássaros cagando ao sol
acabaria por desvendar os seus segredos. incriar um sorriso. desnascer
em arbustos ardendo na noite. será fácil
abrirmo-nos nessas memórias. futuros. e dizer uma verdade bem maior que este vazio.

recriar nesse intervalo quente dos meus seios
uma morada de outro silêncio. completamente outro silêncio. a carne tem
um poder de feitiço. por vezes.
e os dias dilatam-se. são assim como
vulvas macias. e lábios portas para a dimensão interior. os significados ocultos
da mistura do sangue com sangue. da pele em pele apertada. aconchegada
em mim jaz essa memória. os dias em que o silêncio se faz de
cânticos a duas bocas e uma segunda pele.

o meu sexo não nega o sabor do teu. a minha carne não nega o frio
da tua. aquecerei nas mãos esse tormento de pele que é o teu. para te perguntar, sabes
ainda reconhecer o meu caminho. regressa.

choras uma
mulher nua sob as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco,transportadora da morte e da alegria.
e dizes
dai-me uma mulher tão nova como a resina e o cheiro da terra.
com uma flecha em meu flanco, cantarei.
e enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo, suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.

beberei sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da morte
. e eu oiço-te
assim, por dentro dos olhos. e como quem entende digo-te morreremos sim.
embriagados dessa morte alegre. o ventre escarlate todo em vinho de sangue.
numa videira de retorcidos
amplexos. explodindo mãos em folhas largas. e seios. bagos húmidos em cachos.
entre os dentes. entre os dentes.

amanhece. aqui. onde estou. sozinha e repleta
de imagens onde antes havia apenas o teu silêncio. o teu.
remexo mais profundamente o lugar onde a carne guarda a tua memória. e vejo-te
ali
deitado ao sol
na escadaria larga e branca
essa mesmo sim
cantando esse silêncio novo quando
sem muitos gestos dizias,

talvez consiga explicar melhor
não é bem a pele
mas a carne debaixo
o sangue e os corpúsculos da dor
não bem a dor mas o vazio
que fica
quando a dor parece que passou
, sabes? dizias como se toda a importância do mundo
rolasse sob a tua língua e se refizesse em saliva do teu próprio corpo. sei.
os mesmos corpúsculos se enrugam no meu corpo. os mesmos.

e
também eu ando para aqui a escorrer este vazio no sangue. um vazio
em que se inscrevem estes corpúsculos verdana size normal. e é porque não nos deixam
espaço para aquele outro silêncio habitado de vermelho e maciez. em que as mãos
desfloram o ventre
húmido e quente da palavra. amor. a(morte). amar-te. quantas
foram as vezes em que veias adentro julgaste
atirar no corpo a confusão de letras e letras. formaríamos esses novos
vocábulos se ao menos
os claustros se inundassem de celeste. azul.
não. deitados
lado a lado
o meu rosto no teu rosto assoma por entre os teus olhos
e há uma liquidez estranha. lágrimas de ossos e dias. estendo-te
as mãos. o consolo possível. basta?

... quem habita o silêncio dos dias? esse intervalo entre a placidez de lagartear ao sol
buscando entre as nuvens esparsas uma forma
que nos possa conter. volatizar a dor. ou o vazio onde a dor se inscreveu e agora
cresce nesse gosto acentuado a dois tempos. num momento
existimos nós
deitados ao sol na escadaria da casa grande
e noutro distinto momento esse vazio de nós. não bem o vazio
mas o momento que antecede o vazio
quando ainda não percebemos
que era melhor
a pele rasgada a carne viva
o movimento de roda
dentada engrenando
no que talvez seja
a alma ou os gânglios do sistema nervoso
autónomo
, dizes-me
como se te olhasses assim mesmo, nuvem, viajando através das estradas do céu.
dissolvendo-te na origem das coisas. acho mesmo que nem saberias dizer-me
porque choras agora. mas
o meu colo está aqui. dois seios ainda em intervalos de quente
para te receber. encosta a cabeça. descansa esse insuportável cântico de silêncio igual
e vazio de carne deslizando já para a brancura do tempo. a tua alma sabes
talvez se aninhe. talvez insista ainda nesta palavra redonda.

eu sei. talvez já não haja consolo possível em dois seios inventados
numa qualquer manhã
de um qualquer dia.
a brancura do tempo escorre-te entre os dedos. eu sei. como se de água insubmissa
se tratasse. e não te consolam já meus seios. não. não há
sustentamento que te console.

quando o fruto empolga um instante a eternidade inteira,
eu estou no fruto como sol e desfeita pedra,
e tu és o silêncio, a cerrada matriz de sumo e vivo gosto.

– e as aves morrem para nós,
os luminosos cálices das nuvens florescem, a resina tinge a estrela,
o aroma distancia o barro vermelho da manhã.

e estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste.
se te apreendessem minhas mãos,
forma do vento na cevada pura, de ti viriam cheias minhas mãos sem nada.

e
talvez consiga explicar melhor
se ficar parado
aqui,
pensarás

porque habitas longe já. nessa outra casa
em que as paredes altas se caiam de bolor
e os dias vão escrevendo autónomos
um só
instante. um só.

passou.


e eu
olhando a distância entre os degraus onde estás tu
e os degraus de onde as minhas pernas mais acima te anelam
refaço essa casa grande
entro-lhe pela porta
e chamo-te
vem. tenho as mãos cheias de nada. reviverás assim
no empolgamento de um fruto
entre dentes e língua
eternidade e beijos
tempo e espaço entre o tempo. este silêncio é a urgente reinvenção do som. sopraremos
o vento. pairaremos como aves
debicando no sol
o vermelho de maçã e
deslizando nas nuvens
nos deitaremos nessa água fofa.
essa cama de verdadeiros amantes. o céu abrirá
nas páginas deste livro a ideia de mim
a ideia de ti
e

num terceiro dia de pomares em que a vista voa por entre os cheiros
e se renomeia. são
as polpas rubras dos meus lábios
esmagando-se no
gosto ácido a maçãs da tua saliva
a chamar-te. dar-te-ei todos os frutos maduros
do meu corpo.

ou preferes definitivamente os eucaliptos por causa do cheiro? é que neste pomar
onde agora me escrevo
recordo que dizias de maçãs de rosas
de lírios
de pinheiros em mansidão. e casa. alicerce escavado cravado em mim
raiz nova em profusão de ramos como mãos
o sexo quente entre folhas e folhas
e esse cheiro a resina. a casa como ninho de âmbar
de todos os pássaros. asas de translúcidas gemas. asas.

voarás. regressa.


na sombra desta casa ainda a sombra de ti. ecos me trazem e me levam.
estremeço. refaço-me e oiço-te.

tua voz canta o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias
com o lento desejo do teu corpo.
beijarei em ti a vida enorme,
e em cada espasmo eu morrerei contigo




cantarei também eu
se quiseres. o espasmo. a morte. esse desejo lento de voz em teu corpo.
essa silenciosa água
crescendo livre como rio. e à tua beira
desnudarei este fruto.
















desmond morris, obsession. josé antunes ribeiro, ( para nunca te esquecer ) o difícil comércio das palavras.
blimunda em metamórfica deambulância por entre o herberto helder e a segunda pele do luis
ia e vinha e a cada coisa perguntava que nome tinha- sophia

memória