(para o jorge)
1
ambicionar
o poder vegetal
de respirar
o que não precisas
:do tubérculo inchado
ser-te o cálice que permanece
e te bebe o orvalho
e o tempo
e o tempo
(da nomenclatura: vero,
de verdadeiro)
2
ser da arte
uma via para a extinção
3
dizer das coisas o formato:
único
nos pontos finais
invisível apenas
o nome
saber de cor
a morada
gastar as horas como quem as desconhece
trazer o corpo
num lugar estranho
à própria vida
e ainda assim
persistir
.nem começo
:nem fim
no ventre arredondado
da palavra
amor
as cambiantes nostalgias do som
o infinito.
o infinito e mais dois
4
existir na intermitência
das nossas mortes
:perfilhar-te
e dar-te beijos
que alimentem
-me
5
invejo quem fala
e é ouvido
6
negar um cristo de chumbo
a partir-me os ossos de cada vez
que abocanho o dia
os braços erguidos
os crivos no olhar
abba
abba
e a cada palavra sangrar um minuto
meu
:estar só
absolutamente
tão só
três vezes tão só
7
deitar-me na tua noite
humm gastar do húmido bafo
a tua palavra
eu
ser da medida entre o teu olhar
e a tua mão
o nome
o próprio e mensurável nome
do teu sangue
:sim
e essa ambígua morada para lá do corpo
deambulatório
08 Junho 2008
25 Abril 2008
19 Março 2008
dos dias anteriores

estas palavras viajam sem âncoras´
crescendo a despropósito
entre o céu da boca e a boca do corpo
digo
:estes são os dias do meu amado
o seu tempo desflora-me espesso como o ar
que a manhã lambeu na terra
no ventre terroso do seu corpo
onde por assim ser
começa o seu nome corpóreo
uma árvore de mil frutos
se intromete entre a língua e as mãos
:digo mil frutos e a minha boca não nega
o seu sabor de mel
- que ventos e chuva nos lavem da face da terra
e ainda assim o meu amado se erguerá
e com ele o seu e o meu tempo-
e nos seus olhos
nessas fronteiras de vidro onde
tantas
tantas vezes
espreito a eternidade
duas asas me esperam e me hão-de elevar
pelos céus
o meu amado viaja comigo e eu com ele
entre este e outro tempo e
entre este e outro tempo eu e o meu amado
permanecemos
crescendo a despropósito
entre o céu da boca e a boca do corpo
digo
:estes são os dias do meu amado
o seu tempo desflora-me espesso como o ar
que a manhã lambeu na terra
no ventre terroso do seu corpo
onde por assim ser
começa o seu nome corpóreo
uma árvore de mil frutos
se intromete entre a língua e as mãos
:digo mil frutos e a minha boca não nega
o seu sabor de mel
- que ventos e chuva nos lavem da face da terra
e ainda assim o meu amado se erguerá
e com ele o seu e o meu tempo-
e nos seus olhos
nessas fronteiras de vidro onde
tantas
tantas vezes
espreito a eternidade
duas asas me esperam e me hão-de elevar
pelos céus
o meu amado viaja comigo e eu com ele
entre este e outro tempo e
entre este e outro tempo eu e o meu amado
permanecemos
(para ti, primavera em mim)
marc chagall, les amoureaux
01 Março 2008
ao amante in(di)visível
“nem todo o corpo é carne”*,não
ó subtil incandescência dos olhos
rasto da luz coada por entre os dedos
palavra
-nome que se segrega como suores
minúscula e húmida de cor
soprada ao de leve pelos lábios
não é carne
os recessos sinuosos da memória
os lugares de mim onde a língua
percorrendo-te ávida
sobra nos lugares de ti. carne não é
o desfolho do teu tempo
nos quentes concâvos do meu
ou os dias que aí repousam
acantonados entre uma morte
e outra por vir
suspeito que mesmo a flor
tremenda
do meu ventre
rebentando agora cálida à tua beira
não é essa carne viva e pulsante como astro
mas uma qualquer outra história
de invisíveis
e indivisíveis enredos
mãos bocas fios e abismos com peixes dentro
onde marés e olhos
desvendam no mar os rios e
os ardores do sol
sabem
inevitavelmente
ao luar que aí morre
: não carne,
não
*david mourão ferreira
ó subtil incandescência dos olhos
rasto da luz coada por entre os dedos
palavra
-nome que se segrega como suores
minúscula e húmida de cor
soprada ao de leve pelos lábios
não é carne
os recessos sinuosos da memória
os lugares de mim onde a língua
percorrendo-te ávida
sobra nos lugares de ti. carne não é
o desfolho do teu tempo
nos quentes concâvos do meu
ou os dias que aí repousam
acantonados entre uma morte
e outra por vir
suspeito que mesmo a flor
tremenda
do meu ventre
rebentando agora cálida à tua beira
não é essa carne viva e pulsante como astro
mas uma qualquer outra história
de invisíveis
e indivisíveis enredos
mãos bocas fios e abismos com peixes dentro
onde marés e olhos
desvendam no mar os rios e
os ardores do sol
sabem
inevitavelmente
ao luar que aí morre
: não carne,
não
*david mourão ferreira
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deambulações
memória
- blimunda
- sintra
- ascender-te hei-de, ó meu único senhor, também eu só línguas