25 abril 2008
19 março 2008
dos dias anteriores

estas palavras viajam sem âncoras´
crescendo a despropósito
entre o céu da boca e a boca do corpo
digo
:estes são os dias do meu amado
o seu tempo desflora-me espesso como o ar
que a manhã lambeu na terra
no ventre terroso do seu corpo
onde por assim ser
começa o seu nome corpóreo
uma árvore de mil frutos
se intromete entre a língua e as mãos
:digo mil frutos e a minha boca não nega
o seu sabor de mel
- que ventos e chuva nos lavem da face da terra
e ainda assim o meu amado se erguerá
e com ele o seu e o meu tempo-
e nos seus olhos
nessas fronteiras de vidro onde
tantas
tantas vezes
espreito a eternidade
duas asas me esperam e me hão-de elevar
pelos céus
o meu amado viaja comigo e eu com ele
entre este e outro tempo e
entre este e outro tempo eu e o meu amado
permanecemos
crescendo a despropósito
entre o céu da boca e a boca do corpo
digo
:estes são os dias do meu amado
o seu tempo desflora-me espesso como o ar
que a manhã lambeu na terra
no ventre terroso do seu corpo
onde por assim ser
começa o seu nome corpóreo
uma árvore de mil frutos
se intromete entre a língua e as mãos
:digo mil frutos e a minha boca não nega
o seu sabor de mel
- que ventos e chuva nos lavem da face da terra
e ainda assim o meu amado se erguerá
e com ele o seu e o meu tempo-
e nos seus olhos
nessas fronteiras de vidro onde
tantas
tantas vezes
espreito a eternidade
duas asas me esperam e me hão-de elevar
pelos céus
o meu amado viaja comigo e eu com ele
entre este e outro tempo e
entre este e outro tempo eu e o meu amado
permanecemos
(para ti, primavera em mim)
marc chagall, les amoureaux
01 março 2008
ao amante in(di)visível
“nem todo o corpo é carne”*,não
ó subtil incandescência dos olhos
rasto da luz coada por entre os dedos
palavra
-nome que se segrega como suores
minúscula e húmida de cor
soprada ao de leve pelos lábios
não é carne
os recessos sinuosos da memória
os lugares de mim onde a língua
percorrendo-te ávida
sobra nos lugares de ti. carne não é
o desfolho do teu tempo
nos quentes concâvos do meu
ou os dias que aí repousam
acantonados entre uma morte
e outra por vir
suspeito que mesmo a flor
tremenda
do meu ventre
rebentando agora cálida à tua beira
não é essa carne viva e pulsante como astro
mas uma qualquer outra história
de invisíveis
e indivisíveis enredos
mãos bocas fios e abismos com peixes dentro
onde marés e olhos
desvendam no mar os rios e
os ardores do sol
sabem
inevitavelmente
ao luar que aí morre
: não carne,
não
*david mourão ferreira
ó subtil incandescência dos olhos
rasto da luz coada por entre os dedos
palavra
-nome que se segrega como suores
minúscula e húmida de cor
soprada ao de leve pelos lábios
não é carne
os recessos sinuosos da memória
os lugares de mim onde a língua
percorrendo-te ávida
sobra nos lugares de ti. carne não é
o desfolho do teu tempo
nos quentes concâvos do meu
ou os dias que aí repousam
acantonados entre uma morte
e outra por vir
suspeito que mesmo a flor
tremenda
do meu ventre
rebentando agora cálida à tua beira
não é essa carne viva e pulsante como astro
mas uma qualquer outra história
de invisíveis
e indivisíveis enredos
mãos bocas fios e abismos com peixes dentro
onde marés e olhos
desvendam no mar os rios e
os ardores do sol
sabem
inevitavelmente
ao luar que aí morre
: não carne,
não
*david mourão ferreira
27 fevereiro 2008
cartas para o exílio
dir-se-ia que a noite vem e me traz com ela
até ti
até às horas em que se me despertam estas palavras
escrevo-te sentada no silêncio profundo desta aldeia.
por vezes ponho-me à escuta e quase sinto o mar
rugente e frio
lá ao fundo. penso
que farás
:dormes, certamente,
mão com mão, embalado num sonho,
oxalá lindo, lindo
assim quereria.
são tão altas as paredes da noite
tão habitadas pela estranheza de existirmos. tanta é a insónia
que me visita para me deixar este travo de amargor
esta suspeição de que para lá de todo o mundo
existe qualquer outra coisa
de que nem sei a cor
nem o sabor
(tento recuperar o meu corpo
a morna quietude do meu corpo
e acontece-me despertar
sempre e cada vez mais)
- há qualquer coisa de antigo neste estar aqui
a esta hora despropositada e perdida
a tentar alinhavar uma carta-
(o tempo que nos engole os dias e
o tempo que nos regurgita em solidão à luz do sol)
dias a dias a roda incessante das horas nos rouba
o sonho feliz. provavelmente
é um certo vazio que se instala entre os ossos e
a cor do olhar. perco-me tantas vezes quando
vigio o outro lado do mundo
perante o imenso das águas
de que quase sinto o rugido
aqui
sentada no silêncio da aldeia e digo
:então a vida é isto?
a gente entrega assim
tantas vezes
demasiadas vezes
um corpo
a outro
corpo
na esperança que ele o devolva roído de
ossos e tristezas e no
final
os dias são a hora exacta dos olhos no momento em que uma dor
qualquer
maior que a hora toda
se interpõe entre
mim
e
ti
(carregamos todos demasiados segredos
dores inconfessáveis e antigas
carreiros sinuosos por onde as lágrimas calam
e secam)
sei: há esse quotidiano de mãos
que se afundam na distância
e beijos por dar
sempre por dar
:há essa fronteira de vidro
inquebrantável fronteira de vidro e casas de onde semeamos estas palavras
como segredos
(:quanto
que de nós resta
depois da morte sussurrada
depois da morte
da doce morte
que assoma em cor
ao teu rosto
em água à tua boca
e se faz e desfaz
entre pernas e lençóis e vida
- uma pequena morte que reclamamos como nossa
um pedaço de ressurreição
possivelmente uma terra de renovadas boas-novas
-sei)
a verdade é que uma andorinha nunca basta
para toda a primavera
e como poderíamos então
crescermo-nos como outras terras
um no outro?
(temo ter-te já dito demasiado)
o que na verdade acontece é tangível apenas
no pensamento
sobra sempre um olhar
que vigia o frio rugido em que os dias
como o mar
se estendem para lá
sempre para lá
sempre
para lá
(tenho-te comigo
nesta hora
pequena)
até ti
até às horas em que se me despertam estas palavras
escrevo-te sentada no silêncio profundo desta aldeia.
por vezes ponho-me à escuta e quase sinto o mar
rugente e frio
lá ao fundo. penso
que farás
:dormes, certamente,
mão com mão, embalado num sonho,
oxalá lindo, lindo
assim quereria.
são tão altas as paredes da noite
tão habitadas pela estranheza de existirmos. tanta é a insónia
que me visita para me deixar este travo de amargor
esta suspeição de que para lá de todo o mundo
existe qualquer outra coisa
de que nem sei a cor
nem o sabor
(tento recuperar o meu corpo
a morna quietude do meu corpo
e acontece-me despertar
sempre e cada vez mais)
- há qualquer coisa de antigo neste estar aqui
a esta hora despropositada e perdida
a tentar alinhavar uma carta-
(o tempo que nos engole os dias e
o tempo que nos regurgita em solidão à luz do sol)
dias a dias a roda incessante das horas nos rouba
o sonho feliz. provavelmente
é um certo vazio que se instala entre os ossos e
a cor do olhar. perco-me tantas vezes quando
vigio o outro lado do mundo
perante o imenso das águas
de que quase sinto o rugido
aqui
sentada no silêncio da aldeia e digo
:então a vida é isto?
a gente entrega assim
tantas vezes
demasiadas vezes
um corpo
a outro
corpo
na esperança que ele o devolva roído de
ossos e tristezas e no
final
os dias são a hora exacta dos olhos no momento em que uma dor
qualquer
maior que a hora toda
se interpõe entre
mim
e
ti
(carregamos todos demasiados segredos
dores inconfessáveis e antigas
carreiros sinuosos por onde as lágrimas calam
e secam)
sei: há esse quotidiano de mãos
que se afundam na distância
e beijos por dar
sempre por dar
:há essa fronteira de vidro
inquebrantável fronteira de vidro e casas de onde semeamos estas palavras
como segredos
(:quanto
que de nós resta
depois da morte sussurrada
depois da morte
da doce morte
que assoma em cor
ao teu rosto
em água à tua boca
e se faz e desfaz
entre pernas e lençóis e vida
- uma pequena morte que reclamamos como nossa
um pedaço de ressurreição
possivelmente uma terra de renovadas boas-novas
-sei)
a verdade é que uma andorinha nunca basta
para toda a primavera
e como poderíamos então
crescermo-nos como outras terras
um no outro?
(temo ter-te já dito demasiado)
o que na verdade acontece é tangível apenas
no pensamento
sobra sempre um olhar
que vigia o frio rugido em que os dias
como o mar
se estendem para lá
sempre para lá
sempre
para lá
(tenho-te comigo
nesta hora
pequena)
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ia e vinha e a cada coisa perguntava que nome tinha- sophia